Avô Quico
José Francisco Lopes de Matos.
Avô Quico,
fazes-me falta. Percebo que tudo o que principia tem o seu fim, mas nunca
esperei que chegasse tão cedo o teu fim. Nunca percebi porque te levou o Senhor
tão cedo. Quando partiste, eu tinha já idade para compreender essas coisas. Mas
não tinha ainda idade para perder mais um avô. Entristeceu-me, claro. Ver-te
partir, depois de tanto tempo, depois de tanta luta. Combateste aqueles
enfartes que te perseguiram durante a vida, mas o coração cansou-se de lutar e
adormeceu, para nunca mais acordar. Sinto muita falta dos momentos que passei
contigo. Sinto falta das tuas histórias. Sinto falta das tuas anedotas (que
engraçadas que eram, ria-me sempre). Sinto falta da tua voz, daquela tua voz
carregada de sabedoria. Sinto falta das vezes em que dormia na tua casa, e das
vezes em que tu e a avó Sãozinha me levavam à igreja, aos Domingos. Sinto falta
daqueles momentos em que tu me levavas, a mim e ao meu irmão, a apanhar figos
daquela figueira (ainda lá está, ainda dá figos. Noutro dia apanhei um. Cada
dentada era uma memória. Cada pedaço do figo era uma história tua). Sinto falta
das vezes em que íamos os três ao monte apanhar as canas do fogo-de-artifício,
nos dias depois das festas. Sinto falta tua. Saudades. Sei que, como acreditavas
nessas coisas, estarás no Paraíso, porque em vida só espalhaste alegria, só
espalhaste o bem. Deixaste-nos sós quando partiste. Mas sei, sinto, que nunca
estaremos sós. Tu estarás sempre connosco, no nosso coração, na nossa memória.
Nunca serás esquecido, garanto. E para sempre serás amado por mim, pelos teus
filhos, pela tua família. Estarás sempre presente, embora estejas ausente.
Avô Martins
Augusto Cardoso da Silva Martins
Avô
Martins, não cheguei a conhecer-te. Pelo menos, não cheguei a compreender que
te conheci. Era tão novo quando partiste. Ainda nem um ano tinha e já tu
partias, nos deixavas. Foi o cancro. Essa doença fatal, essa desoladora
condição. Foi o cancro que te levou, que nos roubou um avô, um pai, um marido,
um homem. Foi um cancro no pâncreas, como aquele que levou o Steve Jobs. No
entanto, embora sejas menos conhecido que ele, sentirei muita mais falta tua.
Nunca conheci nenhum dos dois, mas tu ainda me pudeste dar um beijo de
despedida, essa conexão é suficiente. Não me lembro desse momento, era
demasiado jovem, demasiado recente no mundo. Mas a minha imaginação já se
encarregou de preencher essa lacuna. Tenho quase a certeza de que esse momento
aconteceu da forma como o imagino, ou então, semelhante. É a memória que tenho
de ti, criada com a imaginação. Deixaste um vazio no coração daqueles que te
conheceram, mais no da tua família. A avó Rosinha ainda me conta histórias
tuas. Noto-lhe o brilho nostálgico nos olhos sempre que o faz. Tenho a certeza
que ninguém sente mais a tua falta do que ela. Mas a certeza cruel do mundo, a
crua verdade, é que todos temos de partir um dia. O teu dia foi agendado pelo
cancro de que padecias, é injusto teres morrido dessa forma, em dores
constantes, em sofrimento. Merecias ter vivido mais uns anos, mais tempo. Mas partiste.
Mas uma certeza tenho. Onde quer que estejas agora, não é em sofrimento que te
encontras. Será em paz? Será em descanso? Tenho a certeza que sim. Em merecida
paz depois de uma vida preenchida e de um final terrível. Mas estarás sempre
presente. Aqui mesmo, no meu coração.
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